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14 de março de 2017

Sobre mães, crianças e feminismos



Sobre mães, crianças e feminismos 

 Desde que descobri e passei a viver a maternidade digo que é a montanha russa mais alucinante que se pode experimentar, porque nos leva a momentos da mais plena felicidade, assim como a de extrema angústia e (por que não?) também de tristeza. Nessa trajetória muitas de nossas convicções são colocadas à prova, especialmente, no que toca à forma de educar e transmitir valores à nossas crianças. Vivemos hoje um momento em que as discussões acerca do feminismo estão bastante em voga e nos questionar até onde elas podem ou devem impactar as nossas relações pessoais, inclusive na educação de nossas crianças, torna-se imprescindível. A palavra feminismo, por si só, já carrega consigo uma série de significados que lhe são atribuídos com várias finalidades que vão desde à exaltação do movimento, até para sua depreciação. E muitas mulheres receiam ser chamadas de feministas, exatamente por não compreenderem a amplitude e a diversidade que ele pode alcançar e/ou por acharem que devem adotar determinado tipo de comportamento. O feminismo é um movimento político (aqui no sentido mais amplo e não partidário do termo) que tem como objetivo buscar a equivalência de condições, sociais, familiares, econômicas, representacionais etc com os homens. Feministas, então, não pregam superioridade feminina, fim da família, eliminação de religiões, nada disso. Buscamos enxergar que papeis exercemos na família, na sociedade e no trabalho, por exemplo, e a partir daí identificar se temos ou não as mesmas condições que os homens têm. Se não temos as mesmas condições, por que, então, estamos nessas posições? Foi uma escolha, livre e consciente, nossa ou fomos lá colocadas? A partir daí é possível e preciso reagir. Mas essa análise é diária, constante e sofrida, porque o machismo e o patriarcado começam a aparecer em lugares que antes não o víamos. O feminismo é também um movimento bastante diverso. Mulher não é uma categoria única. Há mulheres brancas e negras; ricas e pobres; heterossexuais e homossexuais (além das transexuais) e mais um degrade enorme de posições que nos dão ou não alguns privilégios em detrimento de outras mulheres. Enxergar isso também é importante para entender em nome de que mulheres buscamos a igualdade de condições e por qual feminismo lutamos. Numa retrospectiva bastante rápida é possível dizer que o feminismo “é o filho bastardo da Revolução Francesa”, frase de Nana Queiroz, no livro Você já é Feminista1 quando explica que a partir da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão a escritora britânica Mary Wollstonecraft percebeu a ausência da figura feminina naquela declaração de direitos que os garantia aos homens e aos cidadãos, silenciando e apagando as especificidades da mulher. A partir daí seguiu-se a luta pelo direito à formação acadêmica, à participação política, ao corpo, à participação e influência efetiva nas decisões familiares, às condições de trabalho etc. 1 Recomendo, imensamente, a leitura para quem deseja romper barreiras iniciais e deseja conhecer o movimento. Já conquistamos muita coisa, sim! Já é suficiente? Não! Os dados do Relatório Anual Socioeconômico da Mulher, da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, publicado em 2015, mostram que 42,7% das famílias brasileiras é composta, exclusivamente, por mulheres e seus filhos, enquanto 22,9% é composta por casais com filhos. As mulheres trabalham, em média, por semana, 35,1 horas em trabalho fora de casa e 20,8 horas em trabalho doméstico, enquanto que os homens trabalham 41,8 horas fora de casa e 10 horas em afazeres domésticos. Nos cargos de direção das corporações, 42,6% são homens brancos, 25,4% são mulheres brancas, 19,6% são homens negros e 10,8% mulheres negras. Se falarmos de violência contra a mulher os dados são ainda mais alarmantes, porque, ainda de acordo com o mesmo Relatório, 62,8% dos atos violentos praticados contra a mulher o foram por seus companheiros e 19,0% por ex-companheiros. O que permite afirmar que os homens morrem fora de casa, em virtude de crimes que não levam em conta o gênero da vítima, como roubos, por exemplo; já as mulheres são agredidas e morrem pelo só fato de serem mulheres e seus companheiros ainda estarem repletos do machismo nosso de cada dia. Mas o que esses dados e informações têm a ver com nossas crianças? Assim como o machismo é estrutural, ou seja, está na nossa sociedade, que foi construída sobre bases patriarcais e machistas (basta lembrar que a legislação brasileira tinha, até bem recentemente, como o ‘cabeça do casal’ o homem) quaisquer mudanças que desejamos passará por alterações que nós sofremos e na forma como educamos as nossas crianças. É preciso que nós, mulheres, enxerguemos quais são os lugares que ocupamos ou se estamos onde nos colocam. Nas relações sociais, familiares e de trabalho: opino e sou ouvida? Consigo me posicionar e pôr em prática meus valores e crenças? Consigo enxergar quando sou silenciada? Sou capaz de identificar uma atitude machista, seja de homens ou de mulheres? Consigo refletir acerca das condições de desigualdade entre homens e mulheres? A partir daí é possível que ensinemos às crianças que meninas e meninos devem falar, serem ouvidos e suas opiniões e sentimentos devem ser levados em conta; que ambos podem brincar de cientista, astronauta, de pular corda ou de casinha. Que as tarefas domésticas podem e devem ser distribuídas para meninas e meninos igualmente. Ser mãe não é fácil, as responsabilidades que nos são colocadas, além das que nós já nos atribuímos, são muitas. Ser feminista também não, porque ser confrontada com questões que crescemos acostumadas a ver/ouvir e acabamos por naturalizar faz com que romper esse ciclo seja uma tarefa que precisa ser exercitada diariamente e em todos os espaços. Mas tem um lado excelente, a partir do momento que nos tornamos conscientes do que somos capazes, dos direitos que temos e do que ainda podemos conquistar e construir, oferecer novos horizontes à nossas crianças é uma das formas mais eficazes de colaborarmos com a construção de uma sociedade mais equânime. 


Érica Paes Professora do Curso de Direito, Doutoranda em História. 
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Thais Pinheiro
Thais Pinheiro

Thais Moura, 30 anos, carioca, bacharel em Direito e blogueira social media, mãe em tempo integral do Marcelinho.

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